Esteban Sehinkman » Músico
05/03/09
Esteban Sehinkman: El Sapo Argentino
Material traduzido do site clubdeldisco.com / clubedejazz.com.br

A formação é de trío: piano elétrico Rhodes, baixo e bateria. E o começo do disco, que abre com “Villa Vichy” e suas reminiscências aos voicings de Ray Manzarek (tecladista de The Doors) tem uma marca roqueira, com algo desse espírito setentista dos blues de “La Pesada”, “Pescado Rabioso” ou Pappo’s Blues. Claro, sem guitarra. No lugar de la guitarra, o Rhodes com suas saturações, seu brilho que por momentos remete ao vibrafone, e que nos leva de cabeça a outra época. Mas, por outro lado, esta música é de agora, jamais poderia ser de há trinta ou quarenta anos. Há um sutil toque de humor, de leve ironia que se reflete por exemplo na harmonia de “Tatami”, nos jogos formais com os compassos e tempos. Som roqueiro com agilidade mais própria do jazz modern, com algo de modais funk. A música que sai da cabeça e os dedos de Sehinkman estão cheios de diversas influências que vão da música acadêmica aos mestres do jazz, passando pelo que se chamou de “música progressiva”, mas o mais destacado é sua facilidade para criar melodias.

Numa época em que é habitual dar mais importância aos timbres, as texturas, à repetição de seqüências, em que a melodia em sí mesma está algo desprestigiada no que parece que já está todo dito a nível melódico, Esteban invade por exemplo com a simples e inesquecível “Itatí”, com sua melodía quase japonesa que comove a todos na primeira audição. Sehinkman é um otimista da melodia (parafraseando a C. Bianchi). A busca em todas partes chega por diversos caminhos: em “Sadsong”, por exemplo, a borda entre os arpejos, um pouco à maneira de Debussy” em seus “Arabesques”.

Seria um erro crer que o disco se esgota nas belas melodias e no ar roqueiro. Há muito mais. Há riffs feitos pelo baixo, como em “Hiperolimpic”, que dá substância ao solo do pianista. E está no tema que dá nome ao disco, que é como uma ameaça persistente da chacarera. É uma gravação em que não há muitas improvisações na realidade; não é o típico disco de jazz feito de longos solos sob a forma “tema-solo-tema”. É mais, apoiamos a tese de Sehinkman de que este: “não é um disco de jazz”. Está mais perto de ser um disco de rock, si é que serve de algo as inúteis etiquetas. Por outro lado, como para que ficar claro que é inclassificável, atual, que tem beleza nas linhas melódicas mas também algo de humor e que é muito argentino, há um final, em “Micropunto”, apto para o baile, com um descolante trabalho de Pipi Piazzolla sobre a trama pseudoelectrônica de Sehinkman e Matías Méndez.

Umas palavras para a produção deste disco: não é usual que produtor (Fer Isella) e engenheiro (Facundo Rodríguez) sejam tão interados de um grupo como neste caso; muito menos que apareçam nas fotos de estúdio junto aos três instrumentistas. Se nota o grau de confiança no outro, se percebe o conhecimento mútuo e a felicidade que têm em fazer esta música. Desde o ponto de vista técnico a gravação também é excelente.

Esteban Sehinkman vinha de um complexo e surpreendente Búfalo; em El Sapo Argentino mantém suas qualidades de pianista e melodista, esconde um pouco o lápis de arranjador para descansar mais em seus companheiros de rota e entrega uma obra de arte madura, redonda e visceral ao mesmo tempo.

Entrevista a Esteban Sehinkman, por Diego Lenger y Germán Andrés

Quando resolveram gravar o disco?
Há uns meses, na segunda metade de 2008, sentí que a música e o trio estavam prontos para a experiência de estúdio. Tínhamos mais de doze temas novos em estoque, que tínhamos trabalhado bastante ao vivo, e estávamos no ponto certo com o frescor de idéias e o ânimo para tocar o material.

O que esse trabalho se diferencia dos outros?
É um trabalho mais luminoso, desde o lado de composição quanto o sonoro. Trabalhamos num ambiente relaxado e com muita boa energía. Tenho que dizer que Pipi (Piazzolla), Matías (Méndez), Fer (Isella) y Facundo (Rodríguez) foram impecáveis. Foi um parto natural, sem dor. E estamos muito bem…

Como foram criados os temas? Havia um roteiro ou um plano prévio para a gravação?
As composições são quase todas de 2008. Foram as idéias se amontoando e num determinado momento apareceu o fio condutor do disco. No estúdio, fomos gravando os temas de acordo com o que sentíamos no momento. Se gravou tudo em um dia e meio, e a manhã do segundo dia foi o melhor horário. Foram muitas primeiras tomadas e quase não houve edição.

Como foi a gravação, como foi o trabalho no estúdio?
Quando contei a Fer e a Facundo o tipo de disco que queria fazer, imediatamente escolheram o estúdio Panda. Eles gostavam das possibilidades que oferecia este mítico estúdio, e para mim, tudo parecia bárbaro. Gravamos todos na mesma sala. O Rhodes se conectou a três amplificadores diferentes e por linha. O baixo, por equipamento e por linha. Como estávamos no mesmo quarto, todos estávamos presentes em tudo o que se fazia.

Como você escolheu teus companheiros de trio?
Porque eles são sensíveis, originais, virtuosos e além do mais sempre chegam cedo aos ensaios e aos shows. Mas como pessoas, são intratáveis… (risos)

Porque pensou em usar o Rhodes?
O Rhodes tem luz e mística proprias. Seu som é conector. Creio que está de acordo aos tempos que vivemos. Além do mais, me faz sentir bem.

Despois do “Búfalo” libidinoso chega este Sapo mais ascético, em formato de trio. Alguma idéia de qual será o próximo animal?
Tendo em conta que o Búfalo é da terra e o Sapo bem mais acuático, confesso que desta vez tinha outros dois nomes tentadores para o disco: “A merluza zacateca” e “Camarão japonês, diria que o próximo animal vai ter asas… Até aqui eu posso adiantar.


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